segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Quem sou!

Resolvi começar este blog porque estou desempregado. Não sou o único, sei disso, mas merda... nunca fiquei por tanto tempo! Só agora entendo o quanto esta situação é difícil... Sou jornalista formado, solteiro, meu inglês é intermediário, mas tentarei mostrar nestas linhas que o português vai "muito bem, obrigado". Melhor que o de muitos reporteres com inglês fluente por aí. Mas não estou aqui para lamber as feridas do orgulho... Taí uma coisa que desempregado não pode ter: Orgulho. Quando se está sem emprego há mais de seis meses, dependente da ajuda da família para o próprio sustento, dando cabeçada de bico em bico como eu, o nosso amor próprio começa a ser dilacerado, esmigalhado em pedacinhos pontudos e qualquer elogio à sua pessoa, ao invés de te por pra cima, fere. Penetra no seu ânimo como fragmentos de vidro que vão te machucando, machucando até formarem uma ferida que parece inculrável: a ferida do desespero. Alguns chamam de depressão e talvez seja mesmo, mas quem está desempregado não tem o direito de ficar deprimido. DEPRESSÃO é uma doença cara e tratá-la custa uma boa grana em remédios e terapias... quem tem mais paciência procura o serviço público, mas quem sabe que isso de nada adianta, a não ser gastar seu tempo e esperança em intermináveis filas de espera, engole o orgulho ferido e segue em frente tentando sorrir para as migalhas de oportunidade que vão surgindo. Portanto, como eu disse, não estou começando este blog para lamber o meu orgulho ferido...
Quero compartilhar as impressões e experiências que tenho vivenciado nestes sete meses... Quem sabe alguém se interessa em fazer o mesmo. Pois o desempregado é um ser solitário... por mais que ele tenha família, amigos, namorada (o), é assim que ele se sente, pois somente ele sabe a medida exata do seu sofrimento. Quando alguém lhe diz: "isso é só uma fase", "todo mundo já passou por isso", "você tem que pensar positivo", ele até concorda, mas não consegue deixar de pensar que é o único naquela condição.
E vale lembrar também que o desempregado está ciente da sua insignificância para o mundo e para o resto das coisas. Quem tem emprego, por mínimo que seja, se sente alguém... Acredita que tem valor para alguma coisa. Mas o desempregado sabe que não passamos de pessoas anônimas. E que a roda excludente do sistema não vai parar, nem desencarrilhar se ele resolver pular fora.
Sou mais um dos milhões de desempregados deste país que nunca deixou de se curvar aos interesses internacionais em prol de uma política e economia própria, mais adequada ao seu espaço geográfico e ao seu povo. Eu tinha um cargo de responsabilidade em uma ONG voltada para questões ambientais no ambiente urbano... trabalhava em prol de um mundo melhor para se viver. Mas a CRISE ECONÔMICA MUNDIAL, essa mentira deslavada que inventaram só para deixar ricos mais ricos com o dinheiro público, devorou o meu emprego e o de muitos amigos que trabalhavam comigo. Isto aconteceu em fevereiro deste ano e desde então vivo do subemprego. Trabalhador informal à mercê das intempéries da vida. Não vejo um médico há quase um ano, meus dentes apodrecem na minha boca sem tratamento e meu ânimo se desfaz a cada momento... Às vezes estou bem, alegre e inspirado, para no momento seguinte me fechar chorando num canto, me debatendo contra as paredes pedindo para que elas me esmaguem... é muito triste estar desempregado. Quem nunca viveu esse drama, por favor, não tente consolar o amigo elogiando suas qualidades. Isso não é digno. Todos sabemos do que somos capazes, mas o desempregado só consegue enxergar sua própria desgraça. E só vai se sentir melhor quando todo o pesadelo passar.

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